Dízimo: mandamento ou mordomia?

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Por Adriana Amorim – www.guiame.com.br

“Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas”. A passagem de Malaquias 3:8 é frequentemente citada em pregações que abordam o dízimo, assim como os versículos 10 e 11: Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes. 11  E por causa de vós repreenderei o devorador, e ele não destruirá os frutos da vossa terra; e a vossa vide no campo não será estéril, diz o SENHOR dos Exércitos.

Mas, o texto de Malaquias pode ser referência aos cristãos hoje? Ao não se devolver 10% dos recursos próprios ao templo, Deus está sendo roubado? O devorador pode tocar a vida daquele que não contribui com o local que lhe dá alimento espiritual? Quando o dízimo não é praticado, pode-se estar barrando as bênçãos de Deus?

Compreender o ato de dedicar 10% do que se ganha em benefício do Reino, envolve conhecimento da Palavra e do contexto histórico no qual ela se insere.

O dízimo no Antigo Testamento

Dedicado aos levitas, sacerdotes e auxiliadores do templo no Antigo Testamento, o dízimo não é um exercício exclusivamente judaico-cristão, de acordo com o teólogo e professor do Instituto Betel de Ensino, Carlos Augusto Vailatti.

“Essa prática existia também no mundo antigo, como, por exemplo, entre os babilônios, os persas, os fenícios, os etruscos, os lídios, os gregos, os romanos, os cartagineses, os árabes e até mesmo entre os chineses, além de outros povos”, afirma o teólogo.

Pastor da igreja Presbiteriana em Buritis (MG) e historiador, Gerson Freire aponta que a contribuição voluntária já existia antes mesmo de Abraão abençoar financeiramente a Melquisedeque, rei de Salém ( Hb 7:2 ).  “Isso não apareceu naquele momento, o costume já existia. Com o passar dos tempos e com o ‘aumento’ da revelação das leis de Deus para aquele povo, o dízimo é concebido enquanto pratica cúltica”, diz Freire.

O contexto histórico de Malaquias

Em um contexto histórico diferente, no qual a Igreja cristã não havia nascido, o teólogo Vailatti explica que, ao que tudo indica, o livro de Malaquias tenha sido escrito durante o domínio persa sobre a Palestina.

“Nesse período, Judá era administrada por um governador designado pelo Império Persa. […] Acontece, porém, que durante o reinado de Xerxes [rei], os valores destinados ao Templo de Jerusalém para a sua manutenção foram cortados pelo Império Persa”.

O povo assumiu então a responsabilidade financeira do sustento dos sacerdotes e da manutenção do templo, o que ocasionou corte de gastos e, de acordo com Vailatti, a deterioração da adoração cerimonial a ponto do profeta falar a respeito das práticas de contribuição de Israel naquele tempo.

O teólogo explica que antes de falar em “roubar a Deus”, Malaquias faz críticas a maneira como o povo de Israel estava ofertando. Censura o tipo de oferta, como a de animais com defeitos físicos, roubados e doentes (Ml 1:8; Ml1:13); e a falta de ética de sacerdotes que depositavam ofertas no altar, mas eram desleais com suas esposas (Ml 2:13-17)

Malaquias hoje

Para o pastor e comunicador Ronaldo Didini, o livro de Malaquias é ainda hoje referência para as formas de doação do cristão em mais de um aspecto: “Primeiro: revela como os sacrifícios tornarem-se inúteis e ineficazes […] O povo sacrificava negligentemente e esperava algo em troca da parte de Deus. Segundo: revela como Deus quer que o seu povo aja, ou seja, Ele provê 100%, enquanto o dízimo (10%) demonstra inequivocamente que o povo devolve a parte dEle, para mantimento de Sua Casa”.

Segundo o teólogo Vailatti, a única passagem presente no Novo Testamento que confirma a prática da coleta do dízimo, assim como em Malaquias 3:10, está em Mateus 23:23 ? “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas”.

Vailatti assinala ainda que mesmo sendo uma passagem dirigida aos escribas e fariseus, o texto de Mateus relaciona-se à Igreja hoje: “João Batista também prega a mensagem do arrependimento, por exemplo, aos saduceus e fariseus (Mt 3.1-7) e, nem por isso, essa mensagem serve ‘apenas’ para esses ‘representantes de Israel'”.

“Não há razão para crer que a prática do dízimo tenha sido abolida pelo Novo Testamento, uma vez que possuímos provas mais do que suficientes – do ponto de vista histórico-cultural – de que o ato de ‘dizimar’ era praticado normalmente no período neotestamentário e também no período subseqüente dos chamados ‘Pais da Igreja’ (100-750 d.C.)”, articula o teólogo.

Para o pastor Caio Fabio, o desvio da fé original fez com que o templo fosse visto como lugar de oficialidade e poder. “O texto de Malaquias fala do Templo-Estado. A Igreja não é assim!”, expõe Caio Fabio.

“‘Os evangélicos”, por exemplo, brigam pela ‘igreja’ como detentora do ‘poder fiscal de recolhimento dos impostos de Deus’, sem saber a interpretação legal de Malaquias não cabe nessa nova dispensação da consciência na Graça […] Visto que se colocaram sob o comando de algo que foi instituído para a ‘igreja’ quando ela foi deixando de ser apenas Igreja, conforme a leveza do Evangelho; e conforme o poder que Constantino instituiu, chamando-o de ‘Cristianismo'”.

Na opinião do pastor, é isso que faz de Malaquias 3 um texto constantemente utilizado em pregações que abordam contribuições financeiras: “Supostamente se transfere para a “igreja”, a qual, tendo CGC e Estatuto, vira o “Banco do Dinheiro de Deus”; e o pastor, líder, apostolo, bispo, ou seja lá o que for…, torna-se o “Dono do Banco”.

Libertando-se da avareza?

Mas, a pregação que utiliza Malaquias 3 não estimula o cristão a despojar-se de bens materiais?

Carlos Vailatti entende que a prática de devolver o dízimo ao templo não representa necessariamente que o cristão esteja liberto do egoísmo. “Segundo a Bíblia, avareza é sinônimo de idolatria. E a idolatria, por sua vez, impede a pessoa de pertencer ao reino de Cristo e de Deus (cf. Ef 5.5). Além do mais, creio que não devemos falar sobre o dízimo em nossos púlpitos como sendo uma ‘obrigatoriedade’, mas sim como um gesto de amor, de desprendimento e de gratidão a Deus” por todas as bênçãos que Ele nos tem proporcionado”.

Ter conhecimento da Palavra e crer na revelação do Espírito Santo são para o pastor Ronaldo Didini dois “degraus espirituais” que o indivíduo deve galgar antes de entregar 10% do que recebe. Segundo ele, um ato de fé.

Referindo-se à passagem de Malaquias 3:11, que fala sobre o “devorador”, Didini expõe:

“É o único espírito maligno,  demônio,  que tem um nome revelado na Bíblia. O crente que ‘finge dizimar ou que procura justificativas para não dizimar’ será alvo do devorador, até para que aprenda a ser fiel e passe a dizimar segundo o conhecimento de Deus!”.

De acordo com o líder, a pregação que aborda a importância de oferecer o dízimo faz com que o crente conheça a relevância do ato e de seus efeitos. “Permite que o cristão entenda a importância da obediência a Deus e o caminhar segundo a dependência dEle. Isto resulta em receber bênçãos sem medida”, afirma.

Formas de contribuir

Com relação aos possíveis destinos para o dízimo, o historiador e pastor Gerson Freire defende que não há base bíblica que aponte que este subsídio deva ser destinado ao templo.

“A tradição cristã protestante é que você dê seu dízimo na congregação a qual você é membro. Isso é uma tradição que é muito forte e que se tornou quase uma verdade instransponível para algumas denominações […] Contudo, a tradição e a falta de conhecimento teológico sobre o assunto deu uma ‘autoridade’ a líderes que usam descabidamente da Bíblia para amedrontar pessoas que também não conhecem as escrituras”.

Segundo Vaillati, a Bíblia não fornece detalhes sobre a aplicação dos 10% das finanças do cristão.  “Porém, penso que o dízimo seja uma forma de contribuição que não pode ser ‘negociada’. Acredito que ‘doações’ para a Missão, para amigos, parentes, pessoas carentes e outros não devem substituir a nossa responsabilidade de ‘dizimar'”.

Devolver o dízimo aonde se recebe o “alimento espiritual” é para o pastor Ronaldo Didini a forma bíblica de contribuir: “Esta é das premissas sobre o ato de fé em dizimar. Quem quiser ajudar ou contribuir fraternalmente em alguma causa, que o faça através de uma oferta, como a Palavra nos orienta a fazê-lo”.

O pastor Caio Fabio sugere ao cristão que beneficie causas que promovam o Evangelho e abençoem vidas. “Isso pode ser numa ‘igreja’, pode ser numa missão séria, pode ser a alguém que carregue sozinho o compromisso de fazer algo importante e sério, mas que não conta com ajuda suficiente”, explica o líder.

O provento, de acordo com Caio Fabio, pode até se estender a pessoas que estejam passando por dificuldades financeiras: “Obedeço o impulso interior na alegria que nasce da possibilidade de ajudar alguém que está em necessidade. ‘Quem dá ao pobre, a Deus empresta’, diz o Provérbio”.

Mas o pastor ressalta: “Eu nunca brinco com dinheiro, pois sei que ele é uma potestade. O lugar mais seguro e útil para o dinheiro, portanto, é sendo usado como parte do culto racional e grato. Mediante o gesto consciente, a gente declara o Senhorio de Cristo sobre Mamon em nossa vida”.

O dízimo hoje

Na interpretação bíblica de Vailatti, a Bíblia ensina ao cristão a prática do dízimo, como também das ofertas: “Às vezes, sabemos que o irmão ou irmã que se assenta ao nosso lado no culto está passando por dificuldades e nós apenas lhe dizemos: ‘Irmão, não se preocupe, pois eu estou orando por você quanto a esta necessidade’. Creio que neste caso nós temos que fazer muito mais do que simplesmente orar […] Devemos colocar a mão no bolso e ajudar essas pessoas a saldarem seus compromissos. Tal gesto não tem nada a ver com ‘fazer a manutenção da miséria alheia’, mas tem relação com a prática do amor cristão de forma incondicional”.

“Semear, compartilhar, dizimar, contribuir são uma graça de Deus, um dom, um convite, e não um fardo religioso”. É assim que Gerson Freire enxerga a prática do dízimo hoje.

Para o historiador, a perspectiva da liberalidade deve nortear o ato de contribuir: “A prática da obrigatoriedade do dízimo aparece novamente com a instituição do cristianismo enquanto religião oficial do Império Romano […] A relação da Igreja romana medieval com as finanças é também um dos motivos que levaram o rompimento do monge franciscano Lutero com a Igreja”.

“A igreja protestante nasce deixando claro que o sacrifício estava todo pago e que não havia mais nenhuma obrigação sacrifical ou sacerdotal, a não ser a voluntariedade da fé e da adoração. Contudo, as Igrejas históricas protestantes ainda adotam a prática da contribuição do dízimo, mas na perspectiva do costume, e não da obrigação sacramental. As Igrejas pentecostais e neopentecostais tratam o dízimo como uma forma de ponte para a bênção de Deus”, opina Freire.

Mesmo compreendendo o dízimo como a devolução de uma parte do que o homem recebe de Deus, Ronaldo Didini alerta que a doação não deve esperar troca de benefícios: “Nada de sacrifícios ou de práticas anti-bíblicas oriundas desta nefasta ‘teologia da prosperidade’, onde o Deus da Glória é transformado hereticamente em um ‘deus de varejo’. Assim, para ofertar adequadamente basta agir conforme o Espírito Santo ensina através do Apóstolo Paulo em II Cor 9:6,7, porque Deus ama a quem dá com alegria!”.

“Eu não dou o dízimo por causa de Malaquias, nem tampouco com medo de ser ‘ladrão’, ou de ser vitimado pelo ‘devorado’. Todas essas coisas morreram com Jesus na Cruz. Nele todos os devoradores foram despojados na Cruz […] Entretanto, não é porque não temo o devorador que deixarei agora de doar”, expressa o pastor Caio Fabio.

Abordando o texto bíblico de Atos 5, o pastor expressa: “Ananias e Safira foram exemplarmente disciplinados pela liberdade que nasce da verdade; e não a fim de gerar medo legalista na Igreja. Eles morreram por terem traído a Graça de dar ou não dar; de ser ou não […]  Dar não os tornaria ‘maiores’! Não dar não os tornaria ‘menores’! Mentir a Deus, todavia, os destruiria! Porém, dar com alegria, abriria para eles um mundo de riquezas interiores e de retornos de bênçãos que são apenas o fruto da própria semeadura feita como generosidade na forma de dinheiro ou bens”.

Fonte: Guia-me

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