Jesus de volta às paradas?

Texto de David Stowe publicado originalmente no The New York Times

O fenômeno da música adolescente Justin Bieber é, sem dúvida, o cristão mais popular do mundo. Nas entrevistas, ele fala sobre ter crescido em uma família evangélica, como ele ora várias vezes ao dia, sua crença em anjos e sua oposição ao aborto.

No entanto, você não vai ouvir o astro pop falar muito sobre a fé em suas canções. Apenas a música Pray quebra esse regra. Em parte isso pode ser escolha dele, mas também é reflexo da divisão entre o secular e o sagrado na música pop. Apesar de ser um raro ponto de luz em uma indústria que enfrenta dificuldades, a música com conteúdo religioso explícito sempre foi separada da música pop não-religiosa pelas rádios e pelo público. Tanto que recebeu até um nome que a distingue: música cristã contemporânea.

Mas não foi sempre assim. Durante a maior parte da história da música pop, temas religiosos tinham seu lugar no topo das paradas. Essa presença foi mais claramente sentida no final dos anos 1960 e início dos 1970. Nas décadas seguintes, com a politização crescente da fé no país, temas religiosos tornaram-se uma espécie de “zona proibida” para os músicos seculares americanos. Como são eles que ainda produzem as músicas que dominam as paradas do mundo todo, esse pensamento se tornou global.

Músicas com conteúdo religioso, sobretudo cristãos, sempre foram temas comuns. Em “A Hard Rain’s Gonna Fall” (1963) Bob Dylan apresentava um tom apocalíptico, como fez Barry McGuire no hit “Eve of Destruction”, dois anos depois. Não por coincidência, ambos posteriormente declararam ter nascido de novo. McGuire em 1971 e Dylan em 1978.

Na mesma época surgiram canções ainda mais explícitas sobre o tema. O Velvet Underground lançou Jesus, regravação do The Byrds de Jesus Is Just Alright, Simon and Garfunkel com Mrs. Robinson, James Taylor com Fire and Rain e Norman Greenbaum com Spirit in the Sky.

Algumas dessas músicas usavam um tom de sátira, sem um compromisso teológico profundo. Ainda assim, era difícil ignorar que Jesus tinha se transformado em um símbolo altamente ressonante para muitos jovens dos anos 1960.

Na virada para a década seguinte, tornou-se sucesso o chamado Movimento de Jesus, algo estranho e inesperado na contracultura da época. Logo jovens de todo o país ouviam sobre a Bíblia e abraçaram a Cristo como uma espécie de antepassado hippie, que usava cabelos compridos e barba, se identificava com os pobres e questionava a sociedade em que vivia. Eles se reuniam em cafeterias cristãs, encontraram abrigo em casas e grupos cristãos que ainda lembravam os hippies.

Esse novo fervor religioso resultou em o nome de Jesus voltar a conviver com a música popular. Lançado como álbum duplo em 1970, o musical Jesus Christ Superstar chegou à liderança dos mais vendidos, sendo posteriormente adaptado para o teatro e para o cinema. Escrito originalmente para uma tese de mestrado, o musical Godspell também foi sucesso na Broadway em 1971. No mesmo ano, foi lançado o álbum conceito de Marvin Gaye, What’s Going On, encharcado de temas espirituais, incluindo referências a Jesus.

O Movimento de Jesus e sua música influenciaram a música tocada em igrejas, adaptando o ritmo que agradava aos mais jovens. Surgia então um novo tipo de “música de louvor”, congregacional e com a inclusão de instrumentos elétricos, bateria e a sonoridade do rock substituiu gradualmente a métrica dos hinos comuns nas igrejas.

Outra tendência se fortaleceu nas congregações cristãs recém-revigoradas das décadas de 1970 e 1980. Além da inovação litúrgica, essas igrejas ajudaram – às vezes intencionalmente, às vezes não – a consolidar posições conservadoras sobre questões emergentes na cultura de guerra, como a oração em escolas, aborto, direitos das mulheres, o casamento entre homossexuais e uma política externa agressiva.

Mesmo que uma grande parcela de seus membros já estava inclinada ao conservadorismo como reação aos extremos da cultura hippie, muitas vezes ocorreu um impulso com a força motivadora da música pop com temas religiosos. Na verdade, a música popular cristã é um componente crítico do novo conservadorismo. Um dos líderes da direita cristã na política atual, Mike Huckabee, chegou a liderar uma banda chamada Capitol Offense.

Aos poucos, essa música cristã contemporânea tornou-se mais diversificada no estilo e experimentou sucesso comercial. A chamada Geração X e seus sucessores cresceram cantando música cristã contemporânea durante o culto. Criou-se um nicho de mercado específico.

O resultado foi um maior distanciamento entre música secular e religiosa. Atualmente, evangélicos podem ouvir músicas cristãs bem produzidas, disponíveis em todas as nuanças da música popular, não precisando “depender” de artistas seculares. Depois dos anos 1980s, a convergência ainda maior do cristianismo evangélico com a política de direita fez artistas seculares evitarem referências religiosas, pois isso assustaria seu público principal.

Curiosamente, hoje em dia é Lady Gaga que parece trilhar um retorno ao pop com referências religiosas. Seu novo álbum traz canções como “Born this way” e “Judas”, que citam, respectivamente, Deus e Jesus. Mesmo que isso não signifique o fim do racha entre o religioso e o secular na música pop, é curioso que seja preciso alguém controversa como Lady Gaga para trazer o cristianismo de volta às paradas.

David W. Stowe é professor de Inglês e de Estudos Religiosos na Universidade do Estado de Michigan. É autor de No Sympathy for the Devil: Christian Pop Music and the Transformation of American Evangelicalism” [Sem simpatia pelo Diabo: A música pop cristã e a transformação do evangelicalismo americano]

Extraído de: pavablog

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