A verdadeira história sobre Papai Noel que seus pais não contaram

por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

Nos países católicos da Europa Central – por exemplo, sul da Alemanha, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha, Suíça, Áustria, República Tcheca, Eslováquia, Eslovênia e Croácia – “São Nicolau” é ou era acompanhado por “ajudantes” que usam máscaras e roupas pretas (ou pintam a cara de preto), peles de bode ou outros adereços supostamente “diabólicos” e se encarregam de ameaçar ou assustar as crianças que foram mal-comportadas durante o ano.

Esses ajudantes, tradicionalmente representados por crianças pobres disfarçadas, são conhecidos como Knecht Ruprecht (Servo Ruperto) na Alemanha, Krampus (Garra) na Áustria e Schmutzli (Sujo) na Suíça. Dependendo do lugar, limitam-se a deixar pedaços de carvão em vez dos presentes, ou uma vara como aviso de que, se não melhorarem de comportamento, o ajudante “preto” de São Nicolau virá castigá-los.

Talvez isso tenha tornado a fama de Nicolau um tanto ambígua. Em alemão, “Nickel”, que pode ser uma contração de Nikolaus, era o “capeta”, como diríamos em português. O nome original do metal níquel era Kupfernickel (cobre do capeta), por ser visto como a falsificação da prata por um malicioso duende das minas. Em inglês, Nick ou Old Nick também é sinônimo de capeta.

Por que São Nicolau, e por que nesses países? Vejamos a lenda de Nicolau – rica, mas não tão focada em crianças quanto se pensa. Um de seus principais papéis é o de patrono dos marinheiros e pescadores, pois sua família possuía uma frota de pesca – o que ajuda a explicar sua popularidade na Grécia, na cidade italiana de Bari (da qual é patrono) e mesmo na Holanda medieval, mas não em terras distantes do mar.

Outro papel é de protetor dos estudantes. Nicolau teria sido enviado pela família, quando jovem, a estudar em Alexandria. É principalmente nessa qualidade que ele é conhecido e festejado em Portugal, pelos universitários de Guimarães, seguindo uma tradição que, na Idade Média e início da Idade Moderna, era comum na Europa Ocidental, inclusive nas famosas universidades de Paris, Salamanca e Louvain. Suas festas, as Nicolinas, constituem-se de desfiles, danças, músicas e coletas tradicionais que se estendem de 29 de novembro a 7 de dezembro.

Seu ponto culminante é o romântico ritual das “maçãzinhas”. No dia de São Nicolau, os rapazes, disfarçados e ajudados por “escudeiros”, levantam com vigor uma enorme lança enfeitada com laços previamente pedidos às garotas, que por meio de cores, símbolos e mensagens dão suas “dicas” para os rapazes. Com a ponta da lança, maçãzinhas são oferecidas às jovens que esperam nas varandas e devolvem o gesto trocando-as por uma prenda, às vezes com significado especial. Quando acabam as maçãs, a lança é oferecida àquela que o rapaz escolher – por ter lhe dado uma fita “atraente”, ou por já ser sua namorada. Caso esta não exista, a lança é oferecida à mãe. A lança e a maçã não seriam mistérios para Freud, é claro.

Um lado menos agradável de Nicolau, ao menos a olhos modernos, é o da intolerância. Teria sido bispo da cidade grega de Mira (hoje Demre, na Turquia), no século IV, teria sido expulso (e depois perdoado) do concílio de Nicéia por esbofetear Ário, mais tarde condenado pela heresia de pregar que o Filho e o Espírito Santo são criaturas, não pessoas da Trindade divina. Os documentos oficiais de Nicéia, porém, não citam o incidente nem mencionam um Nicolau entre os bispos presentes.

Nicolau também teria sido o responsável pela destruição de um magnífico templo de Ártemis em Mira – exemplo seguido com ainda mais ferocidade, em 401, por São João Crisóstomo, ao destruir, de uma vez por todas, o (várias vezes reconstruído) templo de Ártemis em Éfeso, uma das Sete Maravilhas. Talvez por isso, Nicolau é festejado em 6 de dezembro: originalmente, essa era a data do nascimento de Ártemis. A maioria dos santos da Antiguidade são celebrados na data de seu martírio, mas Nicolau foi um dos poucos a morrer na cama.

Nicolau também é conhecido, por outro lado, como defensor dos injustiçados e oprimidos: teria aparecido em sonho a Constantino para intervir em favor de três de seus servidores que, embora inocentes, haviam sido condenados à morte. O imperador, em seguida, os teria absolvido. É principalmente por esse atributo que Nicolau é venerado na Rússia, da qual é patrono.

A lenda também inclui um estranho milagre: teria ressuscitado três crianças assassinadas por um açougueiro, picadas em pedaços e jogadas num barril para serem servidas como carne salgada durante uma época de fome. Na sua história mais conhecida no Ocidente, Nicolau ajudou as três filhas de um comerciante falido, que pretendia forçá-las à prostituição, jogando um saco de ouro que serviu ao pai de dote para casar a filha mais velha. Depois jogou outro para a segunda filha. O pai o descobriu quando jogou o terceiro e lhe pediu perdão. Em honra dessa lenda, São Nicolau foi geralmente representado na heráldica por três besantes (moedas) de ouro.

Nicolau tem, uma fama de justiceiro, uma lenda sobre crianças não relacionada a presentes e outra de presentes não relacionada a crianças. Tudo isso teria confluído, sem mais, na imagem folclórica do santo da Europa Central e seus estranhos ajudantes a distribuírem prêmios e castigos? Talvez a história seja um pouco mais complicada.

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Autor: Miguel Martins

contato, sugestões, críticas: miguelmartins27@gmail.com

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